Sábado, 20 de Março de 2004

MIGUEL DE UNAMUNO

Virá de Noite...



Virá de noite quando tudo dorme,

virá de noite quando a alma informe

se embuça em vida,



virá de noite com seu passo quedo,

virá de noite e pousará seu dedo

sobre a ferida.



Virá de noite e seu fugace lume

volverá luz todo o fatal queixume;

virá na treva,



com seu rosário, soltará as contas

do negro sol, que dão cegueiras prontas,

e tudo as leva!



Virá de noite que é mãe, caridade,

quando no longe ladre a saudade

perdido agouro;



virá de noite; apagará seu prazo

mortal latido e deixará o ocaso

vazio de ouro...



Virá uma noite recolhida e vasta?

Virá uma noite maternal e casta

de lua plena?



E virá vindo num devir eterno;

virá uma noite, derradeiro inverno...

noite serena...



Virá como se foi, como se há ido

- ressoa ao longe o fatal latido -,

não faltará;



será de noite mais que quando aurora,

virá na hora, quando é o ar quem chora,

e chorará...



Virá de noite, numa noite clara,

noite de lua que ao sofrer ampara,

noite desnuda,



virá, virá... vir é porvir... passado

que passa e queda e que se queda ao lado

e nunca muda...



Virá de noite, quando o tempo aguarda,

quando uma tarde pelas trevas tarda

e espera o dia,



virá de noite, numa noite pura,

quando do sol o sangue se depura,

do meio-dia.



Noite há-de ser enquanto venha e chegue,

e o coração rendido se lhe entregue,

noite serena,



de noite há-de vir... quem há-de vê-lo?

De noite há-de selar seu negro selo,

noite sem pena.



Virá de noite, aquela que dá a vida,

e em que na noite ao fim a a alma olvida,

trará a cura;



virá na noite que nos cobre a todos

e espelha o céu nos reluzentes lodos

em que o depura.



Virá de noite, sim, virá no escuro,

seu negro selo servirá de muro

que encerra a alma;



virá de noite sem fazer ruído,

apagar-se-á nos longes o latido,

virá a calma...

virá a noite...







MIGUEL DE UNAMUNO
publicado por CONSTALVES às 12:04
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1 comentário:
De amelia a 23 de Março de 2004 às 11:07
Não conhecia este belíssimo poema de Unamuno.Obrigada, Constantino.

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