Domingo, 5 de Março de 2006

Ana Marques Gastão

Não é o coração

Não é o coração
mas esta carne
em seu rumor.

Não é o coração
mas teu silêncio
de intenso furor.

Não é o coração
mas as mãos
sem corpo, vazias.
Na grave melodia
de um instante
tu e eu
em desequilíbrio
na infame
consistência
de um absoluto
obstáculo.





Ana Marques Gastão
Nocturnos
Canções com palavras
Gótica
2002
publicado por CONSTALVES às 22:55
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Quinta-feira, 2 de Março de 2006

Eva Christina Zeller

Auto-retrato

Para onde quer que vá
já lá estive
o que quer que faça
não posso decidir
quem quer que eu ame
é uma parte
por muito que morra
fico com vida



Eva Christina Zeller
Sigo a Água
Tradução e prefácio de
Maria Teresa Dias Furtado
Relógio d´Água
1996
publicado por CONSTALVES às 23:01
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Casimiro de Brito

Do Poema

O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas vegetação. Nem
tão- pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes -


o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.



Casimiro de Brito
Ode & Ceia
Poesia
1955-1984.
publicado por CONSTALVES às 22:17
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Ana Luísa Amaral

Reflexos

Olho-te pelo reflexo
Do vidro
E o coração da noite

E o meu desejo de ti
São lágrimas por dentro,
Tão doídas e fundas
Que se não fosse:

o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,

invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.


Ana Luísa Amaral
In Anos 90 e Agora
Quasi Edições
publicado por CONSTALVES às 22:11
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Fiama Hasse Pais Brandão

A porta branca



Por detrás desta porta,
uma de todas as portas que para mim se abrem e se fecham,
estou eu ou o universo que eu penso.
Deste meu lado, dois olhos que vigiam
os fenómenos naturais, incluindo a celeste mecânica
e as sociedades humanas, sedentárias e transumantes.

Mas podem os olhos fazer a sua enumeração,
e pode o pensado universo infindamente ir-se,
que para mim o que hoje importa
é aquela olhada vaga porta.

Que ela seja só como a vejo, a porta branca,
com duas almofadas em recorte,
lançada devagar sobre o vão do jardim,
onde o gato, por uma fenda aberta
pela sua pata, tenta ver-me,
tão alheio a versos e a universos.



Fiama Hassa Pais Brandão
Cena Vivas
Relógio d´Água






Fiama Hasse Pais Brandão
publicado por CONSTALVES às 22:02
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