Domingo, 29 de Agosto de 2004

Mikhãlis Katsarós

o meu testamento

Resisti
ao que ergue uma casinha
e diz: estou aqui bem.
Resisti ao que volta para casa
e diz: Deus seja louvado.
Resisti
ao tapete persa das casas aos andares
ao homenzinho do escritório
à firma de importação-exportação
à educação do Estado
ao imposto
e até a mim que vos narro.

Resisti
ao que saúda da tribuna horas
sem fim os desfiles
à beata que reparte
imagens de santos incenso e mirra
e até a mim que vos narro.

Resisti
ainda a todos aqueles a quem chamam grandes
ao presidente do Supremo resisti
às públicas músicas às paradas
a todos os congressos que falabaratam
bebem cafés congressistas conselheiros
a todos os que escrevem arrazoados sobre a época ao
borralho do Inverno
aos votos de adulação às imensas vénias
aos escribas servis para os seus sábios chefes.
Resisti aos serviços de estrangeiros e passaportes
às horríveis bandeiras dos Estados e à diplomacia
às fábricas de material de guerra
aos que chamam lirismo às palavras bonitas aos cantos
marciais
às canções delicodoces com os prantos
à assistência
ao vento
a todos os indiferentes e aos sábios
aos demais que fazem de vossos amigos
e até a mim, mesmo a mim que vos narro
resisti.
Poderemos então talvez seguros seguir para a
Liberdade.






Mikhãlis Katsarós

[Tradução de Manuel ResendeJ
publicado por CONSTALVES às 08:25
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Sábado, 28 de Agosto de 2004

Nietzsche

Ecce Homo

Sim, bem sei donde provenho:
Voraz como chama em lenho,
brilho e todo me consumo.
O que toco luz se faz,
Carvão quanto deixo atrás:
sim, que sou fogo presumo!



Nietzsche
[Tradução de Jorge Vilhena Mesquita]
publicado por CONSTALVES às 20:31
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Sábado, 21 de Agosto de 2004

Castro Alves

AS DUAS FLORES




São duas flores unidas
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo,no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.


Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.


Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.


Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!







Castro Alves
publicado por CONSTALVES às 21:54
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Rui Knopfli

AEROPORTO

É o fatídico mês de Março, estou
no piso superior a contemplar o vazio.
Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon
e olha-me, obliquamente, nos olhos:
Não voltas mais? Digo-lhe só que não.

Não voltarei, mas ficarei sempre,
algures em pequenos sinais ilegíveis,
a salvo de todas as futurologias indiscretas,
preservado apenas na exclusividade da memória
privada. Não quero lembrar-me de nada,

só me importa esquecer e esquecer
o impossível de esquecer. Nunca
se esquece, tudo se lembra ocultamente.
Desmantela-se a estátua do Almirante,
peça a peça, o quilómetro cem durando

orgulhoso no cimo da palmeira esquiva.
Desmembrado, o Almirante dorme no museu,
o sono do bronze na morte obscura das estátuas
inúteis. Desmantelado, eu sobreviverei
apenas no preca'rio registo das palavras.



Rui Knopfli
publicado por CONSTALVES às 21:37
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