Terça-feira, 16 de Março de 2004

Guerra Junqueiro

Oração ao pão

Com quantos grãos de trigo um pão se fez?
Dez mil talvez?

Dez mil almas, dez mil calvários e agonias,
Todos os dias,
Para insuflar alentos n'alma impura
Duma só criatura!

Homem, levanta a Deus o coração,
Ao ver o pão.

Ei-lo em cima da mesa do teu lar;
Olha a mesa: um altar!

Ei-lo, o vigor dos braços teus,
O pão de Deus!

Ei-lo, o sangue e a alegria,
Que teu peito robora e teu crânio alumia!

Ei-lo a fraternidade,
Ei-lo, a piedade,
Ei-lo, a humildade,

Ei-lo a concórdia, a bem-aventurança,
A paz em Deus, tranquila e mansa!

Comer é comungar. Ajoelha, orando,
Em frente desse pão, ou duro ou brando.

Antes que o mordas, tigre carniceiro,
Ergue-o na luz, beija-o primeiro!

Depois devora! O pão é corpo e alma
Em corpo e alma
O comerás,
Tigre voraz.

São dez milalmas brancas, cor de Lua,
Transmigrando divinas para a tua!




Guerra Junqueiro, "Vibrações Líricas", Lello & Irmão editores, Porto, 1950
publicado por CONSTALVES às 14:37
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